Heróis do Firmamundo

Venceslau Espada - Escudo

O grande herói de Araucária Frondosa, Venceslau foi o mais importante general deste reino, principalmente na famigerada Guerra entre “Vinhos e Espinhos”. Um homem profundamente letrado, conhecedor dos campos de batalha e exímio estrategista. A alcunha Espada-Escudo vem do fato de portar duas espadas, a primeira, uma lâmina grossa que geralmente usava como um escudo. Já a segunda, bem mais fina e letal, que brandia para definir as lutas.

A atuação de Venceslau durante a batalha foi imprescindível para a vitória dos Pinhões; a organização estratégica de Espada- Escudo permitiu grande avanço e a quase conquista da região do Cabo do Firmamundo, uma importante área geográfica que também interessava aos Lobos das Videiras.

Porém, o que parecia uma conquista simples, foi marcada por muitas perdas e longa extensão da guerra. Manuscritos antigos narram que os videirinhos, mesmo em menor número, lutaram sob efeito de um elixir conhecido como Vinho do Lobo Bravo, que os faziam não temer a derrota ou a morte. Entre combates e emboscadas ao longo do confronto, um dia, ao passar pela Estrada do Tordo Velho, Venceslau saiu bastante ferido, ficando fora de combate por seis meses. Nos primeiros dias disse que fora atacado por criaturas estranhas, mas os médicos e curandeiros achavam se tratar apenas de delírios.

O conflito teve seu fim quando a força videirinha foi reduzida a cinquenta cavaleiros, homens liderados pelo destemido príncipe Ioric Moscatel, o herdeiro da família real da Cabeça do Lobo. No arco final da guerra, Venceslau, já recuperado, voltou para liderar os Pinhões, no papel fundamental de braço direito do jovem rei Ulvran, conhecido como o Pinheiro Jovem. Cavalgava com trezentos homens; destes, cerca de cem eram uma tropa sombria, chamados de “Os Bestiais”. As duas forças se encontraram, em uma conta de seis Pinhões para cada Lobo da Videira, que dançaram em um sofrido combate. Após uma hora de combate os Lobos ruíram. Ao observar à sua volta pelo campo de batalha, o líder dos Pinhões percebeu que a vitória não fora plena: cento e setenta pinhões caídos pela implacável cólera dos Lobos, se não tivessem sido os misteriosos Bestiais, o resultado poderia ter sido pior.

Devido a tantas perdas, os reinos optaram por reconhecer o Cabo do Firmamundo como uma zona comercial influenciada pela Araucária Frondosa.

Com o final da peleja, Espada-Escudo recordou-se do acontecido na Estrada do Tordo Velho, constatando que haviam forças muito sombrias caminhando e ameaçando pessoas pelo Firmamundo e era necessário detê-las. Assim, criou a companhia conhecida como os Caçadores da Noite.

Era composta por quinze membros, entre cavaleiros, arqueiros, paladinos e mestres herbolários e um monge da região do Charco. Venceslau usou dinheiro da primeira missão dos caçadores e a influência do rei Ulvran para fazer a sede dos Caçadores da Noite no Cabo do Firmamundo, além de obter um dracar para as viagens em outros territórios como a Ilha Solene e o Poente.

Segundo relatos, junto com um famoso ferreiro de Passo da Estrela ele forjou, a partir de um metal negro raro encontrado aos pés dos Vulcões Cometa, uma espada com inscrições por todo corpo da lâmina em ouro. Reza a lenda que aquelas inscrições douradas eram um poderoso encanto de repulsa ao mal; e essa arma foi nomeada a “Viúva da Noite”.

Durante quinze anos de caçada, Venceslau e seus confrades eliminaram diversos monstros pelas vastas terras do Firmamundo, e tornaram-se uma referência contra criaturas das sombras. No entanto, por um infortúnio do destino, se depararam com algo muito terrível em meio a uma sombria e misteriosa névoa. De seus dez irmãos de caçada envolvidos naquela perseguição apenas Espada-Escudo e uma arqueira retornaram, assumindo amarga derrota. O grupo restante manteve as caçadas por mais cinco anos; Venceslau, porém, desde aquele dia jamais foi o mesmo. Com o peso da idade fez sua última viagem para o Poente onde encontrou descanso no mosteiro da região do Charco, e viveu junto aos monges seus últimos dias em paz. Lá, dividiu seu conhecimento, onde escreveu a rara obra conhecida com Cânticos da Noite.

A sede dos Caçadores da Noite virou um museu na cidade de Por’t Des, capital do Cabo do Firmamundo. Não se sabe ao certo o que aconteceu com os membros restantes, se eles constituíram família ou se os Caçadores da Noite atuam até hoje de maneira secreta. Sobre a Viúva da Noite, reza a lenda que aos bem-aventurados que conseguem chegar ao mosteiro, a lendária espada descansa sobre a tumba do herói. Rumores falam sobre um enigma talhado na lápide, e que apenas um aventureiro digno poderia respondê-lo e tomar posse da espada lendária.

Garda Cicatriz

O conceito de herói ou vilão é relativo e muitas vezes depende do ponto de vista de quem o segue. Se um catatau fosse perguntado a respeito de Garda Cicatriz, certamente diria que foi um dos males que atormentou Pequenolid; no entanto, se perguntasse a um morador da Casca, uma das ilhas no Arquipélago de Sal, descobriria que Garda foi o libertador daquele povo.

Na época em que o sal era valioso como tesouro, a Casca, um lugar quase inóspito pelas salineiras, tinha sua economia baseada na escravidão. A labuta nas salineiras era sofrível, e os senhores atormentavam seus servos. O açoite desenhava marcas profundas e ardentes que eram decoradas pelo sal e pelo sol.

Com Garda não foi diferente: escravo, já cego de um olho pela alvura refletida das grandes montanhas brancas, certo dia liderou uma rebelião. A revolta foi esmagada, seus comparsas foram atirados de um penhasco para dormirem eternamente no Mar de Nanquim. Porém, para o grande líder da rebelião o exemplo deveria ser maior. Então seus senhores o enterraram até o pescoço em uma das tantas montanhas de barro branco. Sofrendo as dores do açoite e com o sal lhe consumindo a água do corpo o escravo delirou e orou à piedosa deusa Chuva, esposa do cruel deus Sal.

Em meio ao medo e delírio vislumbrou a vespa ferroando a aranha que tecia, rápida e sem vacilar e como um sussurro ouviu a sentença “Ou você é a aranha que tece, ou a vespa que ferroa”; e vislumbrou o fantasma dos que morreram e que caminhavam junto ao silêncio. Por fim viu a serpente, a grande víbora que lhe veio falar. Os deuses lhe davam o caminho: ele deveria ser a vespa que ferroa? O Fantasma de Sal? Ou a Grande Víbora? A única certeza era a de que seus senhores deveriam ser a aranha que tece.

Despertou de seu transe com uma forte torrente de águas revoltosas. Enfim, havia chegado a Época das Tempestades, temida por muitos, idolatrada pelos salineiros, o alento caía do céu. Graças à água, em meio à pasta branca com pedras e sujeira, conseguiu escapar de seu castigo. Envolto por relâmpagos junto à cortina d’água vislumbrou seu reflexo. Quão despedaçado seus senhores o deixaram, massacrado pelo tempo e com uma chamativa cicatriz que vinha da orelha direita até o lado direito do seu queixo que poupava o seu olho cego, “basta, a vespa deve ferroar, a fantasma aterrorizar e a víbora liderar”.

Após dois dias de reclusão, encontrou a sua primeira arma, uma faca de arremesso. Apesar de apenas um olho, sua pontaria era fenomenal, e quem a sentiu primeiramente foi o feitor, nada pôde fazer, apenas engasgar com o próprio sangue. Ao recuperar a faca, adotou sua segunda arma, o chicote do homem que tanto o aterrorizou. Aquela fora sua primeira vítima e assim como a vespa, o fantasma e a víbora sentia o desejo de sangue e liberdade misturados juntos à enxurrada que arrastava o sal.

Depois foram os caçadores de escravos fugidos, e soldados do castelo. Uma coisa o havia servido a derrota na rebelião: ele enfim havia compreendido que sua vitória se encontrava nas sombras. Com tal estratégia conseguiu libertar seus irmãos, tomando de assalto o primeiro castelo, onde encontrou sua terceira arma, o Katar, que ficava oculto em sua casaca e o fazia golpear traiçoeiramente feito uma serpente. O castigo aos senhores foi o mesmo que lhe foi dado. Depois foram traficantes de escravos, soldados e cavaleiros restantes e até comerciantes que aportavam na ilha.

Começava a lenda de Garda Cicatriz, o libertador da Casca e criador da Ordem dos Assassinos do Sal. Um misto de figura messiânica por pregar a favor do deus Sal, deusa Chuva e do deus Xião, o grande peixe das Águas Profundas. Após um ano, outros três castelos da Casca caíram, nobres dizimados, títulos e famílias obliteradas. Sob seu azorrague, um séquito de seguidores livres, prontos a morrer por Cicatriz se levantaram como as larvas da vespa devoravam a aranha de dentro para fora.

Com a pilhagem de navios e um patrimônio considerável o salineiro ergueu uma frota para conquistar novos territórios e espalhar sua palavra, deixando o seu segundo em comando na Casca. Assolou outras Ilhas, poupando apenas o mosteiro dos monges adoradores dos gigantes, por um breve momento de piedade. Com sua frota, confrontou Tribais Vermelhos, viajou até a Longínqua onde conheceu as artes dos venenos e remédios, além do pouco que se sabe sobre magia. Até que em seu retorno ouviu sobre a existência do Grande Planalto e da cidade conhecida como Pequenolid.

Ao circular o continente da Aurora, finalmente alcançou o Grande Planalto, subindo pela Cordilheira do Pecado, onde atacou as terras do Coqueiro Rei. Durante a investida, assassinou Jerome Cocão, senhor do Coqueiro Rei e sequestrou sua esposa, a princesa Marcela Cocão, filha do rei Dante Arco Longo.

Como resposta, o senhor do Grande Planalto ordenou que seus dois filhos sobreviventes Daniel e Lucas resgatassem a irmã, porém durante desastrosa negociata o filho mais novo, agindo por impulso e imprudência, levou todos ao embate. Feroz como uma besta Garda derrotou Daniel, cravando sua marca nos catatais do Grande Planalto, gerando consequências terríveis a aquela nação, com o banimento de Lucas Arco Longo após a perda do irmão.

Orgulhoso pelo feito e com moral elevada, o salineiro juntou seus assassinos para o desfecho final contra o exército de Dante Arco Longo. Entretanto, temendo um final trágico, protegeu o seu legado destinando um grupo de sua confiança para voltar a Casca e compartilhar seu conhecimento. A marcha dos salineiros não foi muito longe, pois as tropas do Clã Arco Longo e seus aliados os fecharam no Desfiladeiro Dos Ventos Cortantes, próximos das Montanhas do Solitário.

Por um infortúnio, Garda não contava com o retorno de Lucas, o último filho homem do Clã Arco Longo, e este também usou as sombras para atacar. O jovem buscava vingança e restaurar sua honra. Junto de cinquenta arqueiros, atacou a retaguarda. Encurralado por duas frentes Cicatriz finalmente teve seu encontro com Lucas, e naquele momento ele sabia que havia selado sua sorte. O jovem príncipe após um difícil duelo em meio a flechas e chamas derrotou o pirata salineiro, pondo fim à vida de Garda Cicatriz.

A lenda do conquistador da Casca não foi silenciada. O grupo de sua confiança espalhou a história, baseando-se nos ideais quase messiânicos do ex–escravo. Porém oficialmente nunca mais se soube da tal Ordem dos Assassinos de Sal, mas no submundo, dizem que quem recebe uma visita de um Fantasma de Sal está com os dias contados. E até os dias de hoje o lema “Ou você é a aranha que tece, ou a vespa que ferroa” causa calafrios até nos mais bravos.

Lucas Arco Estelar

O quarto na sucessão do trono da extinta Pequenolid, liderada pelo Clã Arco Longo. Conhecido em sua juventude por ser beberrão e mulherengo, Lucas jamais aspirou ser o novo rei do Grande Planalto, tarefa que caberia ao seu irmão Edmon, o primeiro na sucessão, que foi levado pela terrível “Loucura do Pão Vermelho”. Temendo a perda de mais filhos pelo mal que assolou Pequenolid, o patriarca Dante Arco Longo ordenou que dois dos três filhos restantes, Daniel e Lucas, navegassem junto a Dalmo e Dario Costas Largas pelos mares à procura de novas rotas de comércio e riquezas.

Passados dois anos, os herdeiros regressam à cidade para o evento que marca a primavera, onde Lucas, mais maduro, tem pela primeira vez uma rusga com lacaios de um clã vizinho, quando é obrigado por seu pai a se retirar do festival. Durante a festividade, o patriarca do clã Costas Largas e principal representante da Etnia Pandareque anuncia que um ex-escravo das Ilhas de Sal e agora pirata, Garda Cicatriz, ronda as Terras do Grande Planalto com uma grande frota. Ao saber da ameaça o rei Dante apenas deu de ombros ao afirmar que suas terras eram inalcançáveis por mar e que jamais subiriam as grandes escadarias.

No entanto , não se esperavam as investidas do pirata pelas encostas e outros acessos que culminaram com ganhos de território e com o sequestro da filha caçula de Dante, conhecida como Marcela Arco Longo, agora casada com Jerome Cocão o senhor do Coqueiro Rei. Temendo pela segurança da filha, o patriarca do clã Arco Longo designou seus dois filhos, Daniel, o herdeiro do trono, e Lucas, como negociadores, além de uma comitiva para o resgate.

Entretanto, as tratativas falharam quando Lucas agiu por impulso e, apesar de conseguir resgatar a irmã, ele sentiu o gosto amargo da perda de seu irmão Daniel. Intolerante e movido pela desilusão e raiva, o rei deserda e bane Lucas de Pequenolid, mesmo sob protestos da rainha Laura Arco Longo. Com o propósito de restaurar a honra, o último filho junta-se a um grupo de arqueiros fiéis a Daniel e, em uma violenta batalha, ataca a retaguarda das tropas de Garda na Batalha do Desfiladeiro dos Ventos Cortantes, onde se sagra vencedor e restaura sua honra como herdeiro do Clã Arco Longo.

Passados cerca de três meses, o príncipe se apaixona por uma jovem plebeia, conhecida como Rubia Estrela, a quem carinhosamente chamava de Princesa Estrelinha. Para sua surpresa, seu pai o havia prometido à filha de Burgos Salazar, um rico estancieiro, como um acordo para pagamento de dívidas. Com forte revolta no coração, Lucas rejeita a filha do poderoso homem, gerando um terrível mal-estar no reino de Pequenolid.

O mal-estar cresceu e se tornou raiva, e dela surgiu em segredo o ódio no coração do estancieiro. Desta forma, Burgos, que não havia aceitado a negativa, subornou e enviou guardas do clã Arco Longo para eliminarem a jovem Estrela. Avisado por um amigo conhecido como Fipo, o “Bardo Doido”, Lucas fez valer cada uma de suas flechas, fazendo jus nome do seu clã. Cheio de raiva, o príncipe culpou o pai por tal atitude, abandonando assim seus títulos e o nome de sua família real, adotando o sobrenome de Arco Estelar em homenagem à sua amada.

Com o auxílio de seu grande amigo Dário Costas Largas, Lucas sobe o rio das Trutas com Rúbia rumando para as planícies, onde outras tribos catatais se instalaram formando um pequeno condado que chamavam de Catatania. Em pouco tempo o jovem casal conseguiu uma vida de paz, e Arco Estelar conheceu o grupo de catatais que mantinha a paz por aquelas terras, os chamados “Cavaleiros Libélula”. Por seu conhecimento em combate, rapidamente se juntou a essa ordem. Tornou-se afamado ao domar um tipo de libélula mais rara e feroz a quem os cavaleiros chamavam de Furiosa, ele a batizou de Argonauta.

Com o passar do tempo, balsas com feridos e refugiados de Pequenolid desciam os rios, apavorados, pois o mal ancestral, um gigante conhecido pelo nome de Aipim, caminhava pelo Grande Planalto. Paralelo a isso, Rubia Estrela tinha fortes pesadelos com tal criatura, sempre repetindo como um mantra que “ambos deveriam atender o chamado”.

Temendo pela segurança de seu amor, Lucas se mantinha neutro: não desejava voltar ao Grande Planalto, tampouco para Pequenolid. As últimas embarcações haviam chegado, e com elas Dario trouxe uma última lembrança e a triste notícia de que o Gigante Aipim havia destroçado a cidade e usava o castelo como trono. Tomado por culpa e arrependimento, Lucas atende ao chamado, rumando para seu antigo lar.

Sabendo de seu fardo, Estrelinha convence o rei Eumano Lokumorst a descer com a frota ao encontro do Gigante pelo leito do Rio Sargaço Bravo. Em seu âmago ela sabia que seu amor a encontraria. Em pouco tempo de combate, metade das embarcações foram destroçadas pelo colosso. Até que o herói surge trajando uma estranha armadura de um azul brilhante jamais visto. Em uma dança mortal, ele e Argonauta combateram a besta. Porém, nem mesmo sua habilidade foram páreos para o monstro. Em um descuido, Lucas foi gravemente ferido e coube à princesa cumprir o seu papel e colocar a abominação em sono profundo. Após executar aquilo que lhe cabia, a Estrelinha foi reclamada como um presente do Firmamundo.

Lucas, apesar de ter sobrevivido, tornou-se um andarilho e jamais foi visto novamente. Os últimos com quem falou apenas disseram que ele buscava sua redenção por não ter seguido três conselhos, conselhos esses que são um mistério na história do maior herói de Catatania.

Lótus Pés Descalços

A maioria dos reinos aurorianos alinha sua grandeza às conquistas de territórios e acúmulo de riquezas. Já os Tribais Vermelhos se vangloriam por estarem na vanguarda pela busca de conhecimento. Tal avanço deve-se principalmente ao regime dos doze Galaus que governam as tribos. Historicamente, para os tribais, a mais importante dentre os líderes, atende pelo nome de Lótus Pés Descalços.

Nascida de família humilde, viveu sua infância dentro de uma palafita em uma das tantas lagoas filhas do Gigante Furioso, sempre conectadas por canais. Desde cedo dominou os conhecimentos sobre as plantas e técnicas de cura junto à sua avó, apresentando pleno domínio e sintonia nas artes medicinais. Com treze anos de idade, pequenas barcas cruzavam a lagoa (onde hoje está erguida a Torre dos Mistérios) em busca da ajuda da menina com nome de flor. Sempre descalça (até mesmo no inverno), a jovem dizia que a lama, a areia, e principalmente o vento lhe falavam quais as poções e fórmulas seriam mais apropriadas.

Ao atingir dezessete anos era tratada como a maior autoridade nas áreas médicas, quase uma divindade. Tal respeito dos tribais provocou a inveja de alguns anciões que cobravam caro por suas artes da cura e viam-se prejudicados pelo prodígio. Cheios de ranço e com o propósito de se livrarem da jovem, forçaram um casamento com o Duque de Pinheiro Alto, hoje um local que faz parte do pavoroso Bosque Podre, na região da Araucária Frondosa. Contrariada por tal tentativa dos anciãos, mas com respaldo de seus pais e avós, Pés Descalços dispensou o tal duque e na calada da noite, em uma improvável jornada descendo o Gigante Furioso, cruzou o Mar de Nanquim sob uma jangada aportando no mosteiro das Ilhas de Sal.

Pacifistas e maravilhados por verem que a jovem não era uma lenda, os monges a acolheram. Nesta fase de sua vida, Lótus pôde ampliar seus conhecimentos sobre anatomia, química e botânica ao viver durante dez anos com os últimos Comungados da Natureza.

Ao saber de uma praga vinda do extinto ducado de Pinheiro Alto que havia se alastrado pelo sul da Aurora, Lótus decide voltar para as Tribos Vermelhas, porém falha em salvar sua família; por ironia do destino, os mesmos anciões que lhe perseguiram também caíram perante a doença.

A violência e mistério que envolviam a tal praga havia atingido araucaritas e tribais de maneira brutal, e à medida em que pessoas fechavam os olhos, o tal Bosque Podre crescia. Lótus, apesar de todos os seus esforços, não conseguia derrotar a praga que assolava as fronteiras.

Reza a lenda que, em uma manhã de tempestade, a agora mulher lembrou-se de deixar os pés descalços sobre o barro, e de braços abertos sentiu o vento e a chuva no rosto: era o mensageiro do Firmamundo lhe falando. Quando o escutou soube o que fazer, Pés Descalços caminhou até uma região pantanosa, onde encontrou uma enorme flor de lótus ainda fechada. Ao tocar nas pétalas, a flor se abriu, como que em um encanto. Uma energia percorreu seu corpo e a fez levitar por cima da planta, que emitia luz e paz.

A destemida e sábia mulher recebia naquele momento o toque do Firmamundo, conhecido como a “Cura das curas”. Com tamanho poder em mãos, ergueu uma barreira de névoa e pétalas, que isolou o bosque e purificou a todos nas regiões afetadas.

Finalmente, com o recuo da praga, a calmaria chegou, e o Galau dos Galaus, conhecido como o Falcão Andurz, a indicou para ser uma das doze líderes: a Serpente, aquela que detinha o conhecimento das Artes da Cura. Tornava-se a terceira Galau das doze Tribos Vermelhas. Como terceira líder fundou a Escola dos Mestres Herbolários, que perdura até hoje, sendo um centro de referência em medicina e a mais imponente das construções dos Tribais.

Aos cinquenta anos tornou-se a primeira mulher a ser a Galau dos Galaus, onde governou até os setenta anos; seu lema era “Enquanto muitos guerreiam por coisas visíveis e palpáveis, devemos nos ater e lutar contra o invisível e impalpável, esses sim, os verdadeiros males”. Viveu até os oitenta e três anos, sempre descalça. Dizem que no dia em que fechou os olhos, uma brisa quente de verão soprou sobre a Galau, e com ela milhares de pétalas de lótus lhe acompanharam pelo Gigante Furioso.

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Kaylena Lill

Todo o Mal Sucumbirá Perante a Luz e

ao Corte que Emana da Adaga da Catarse”



Após o levante dos Haza Harins, contido pelos Três Guerreiros, cada um deles se tornou guardião de um grande território do Firmamundo. E coube a Kaylena Lill o papel de Protetora do Poente.

Com a unificação das tribos do Poente e a criação das primeiras cidades-estados, a guerreira se tornou um porto seguro para os poentinos, possuía carisma e o espírito de liderança de uma rainha; contudo não aspirava o poder, pois acreditava na autonomia dos povos e das pessoas.

Por vezes fora desafiada por homens, os quais notadamente não aceitavam que a guardiã do Poente fosse uma mulher; e sempre derrotou todos que a desafiaram. Contudo, seu maior desafio foi com o além mundo. A saída dos Gigantes para sua morada marca o início da Era da Bonança; entretanto, para estudiosos, O Levante Haza Harin crava de forma marcante os primeiros pilares das sociedades espalhadas pelo Firmamundo como as vemos hoje.

Com o surgimento das primeiras cidades-estados e reinos rudimentares, os habitantes do Poente sentiam-se seguros vivendo em grupos, ou atrás de grandes muros, porém o começo da Era da Bonança foi marcado pela manifestação da magia de modo bruto, não controlado e assim como ela, criaturas reivindicavam seu espaço, dentre elas a terrível Kromuic, a titereira dos Sonhos.

O pesadelo começou na área que correspondia a região que hoje se encontra a cidade de Tavan e seu reino, até as localidades do Charco. Certo dia a jovem Lorena Du Plein Soleil, considerada a mais bela do reino, não despertou de seu sono, permanecia adormecida; porém seus sinais vitais continuavam normais e não havia vestígios de doença, como febre, ou marcas pelo corpo.

A situação piorou com o passar do tempo. Lorena, presa em seu sono, começava a ter pesadelos terríveis, contorcia-se em sua cama, executava movimentos bizarros como se cordas a puxassem. Durante um dia e uma noite a jovem sofreu com tormentos até que, enfim, cessaram; a luta havia acabado e a vítima havia sido tomada, escravizada. Em seu terceiro ato, levantou-se da cama com olhos hipnotizados, sem vontade e começou a executar roubos, ataques a figuras importantes nas cidades, sempre sucumbindo a vontade de algo. Até que o cansaço e a inanição cobraram seu preço.

O que parecia ser um ato isolado se alastrou por toda aquela região: ricas, pobres jovens, ou velhas, o critério era ter sua beleza admirada e deste modo um bando de escravas de algo do além mundo começava a ser erguer pelas terras do Poente, sempre executando atos de servidão, como se pagassem tributo a uma entidade.

O desespero tomava as ruas e somente uma das últimas vítimas em seus delírios descreveu algo como uma mulher pálida e magra sem o maxilar com olhos vermelhos e caninos protuberantes, que exigia ser considerada a mais bela. Tal descrição, chamou a atenção de alguns aldeões que foram até a casa isolada de Kaylena. Ao perceber tamanha gravidade rumou para o mosteiro na região do Charco, onde recorreu à ajuda do monge Touad. Após ouvir os relatos e realizar vasta pesquisa, descobriu se tratar de uma Kromuic. Porém para derrotá-la, somente alguém de espírito forte poderia arrastá-la do além mundo para o Poente.

Kaylena toma para si o novo desafio, sob orientações do monge Touad; durante uma dezena de dias ela meditou, fortaleceu seu espírito, enquanto ele produzia um poderoso artefato místico. Para que a criatura viesse até a Dama da Adaga, como parte do plano, foi espalhado aos quatro ventos que Kaylena era mais bela entre as mulheres do Poente e que jamais seria escravizada por abominação alguma.

Durante dias a dupla aguardou o ataque, naquele que seria o epicentro das manifestações, até que em um momento de cansaço a Kromuic se manifestou; presa em um mundo de sonhos, Kaylena travou sua maior batalha, enquanto Touad recitava um mantra de fortalecimento para a mulher. Uma batalha intensa e dolorosa foi travada… a desafiante começava a fraquejar, apesar de todo o treinamento; em alguns momentos, suas mãos e pés executavam movimentos involuntários, indicando uma possível vitória da abominação.

O que a criatura não sabia é que Kaylena carregava consigo a lendária Adaga da Catarse, uma das três armas que os guerreiros usaram contra as Bestas das Cinzas, a lâmina dotada de poder místico. Em determinado momento em um ato desesperado, a heroína abriu um longo talho na perna. O artefato brilhava, como se sua luz passasse através do ferimento, e atingisse a criatura do outro lado.

Aquele foi o sinal que o monge Touad acendesse uma vela dotada de poder; sua luz intensa conseguiu arrastar a Kromuic das sombras a deixando à mercê da guerreira. A criatura se contorcia, sentia dores por toda luz emanada da vela, as trevas que lhe ocultavam haviam se dissipad;, então Kaylena abriu seus olhos, cheios de raiva e repulsa, torcia furiosa o cabo da adaga dotado de luz.

Sem hesitar, a guerreira ignorou os gritos ameaçadores da criatura e golpeou o violentamente o peito da Kromuic, encerrando sua existência. Enquanto retirava a lâmina, a criatura ia se dissolvendo em uma névoa escura, carregada pelo vento. As vítimas da aberração que sobreviveram despertaram do terrível pesadelo.

Por seu segundo ato, Kaylena ganhou o título de rainha do Poente, mas não viveu em um castelo; permaneceu em sua casa à beira do Rio dos Uivos pelo resto de sua vida. Casou-se três vezes: o primeiro tentou dominá-la pela força e acabou morto, o segundo em uma expedição pelo Charco contraiu a febre do ar ruim e fechou os olhos. Apenas com o terceiro marido de fato constituiu uma família, tendo cinco filhos, dois homens e três mulheres, que herdaram a famigerada adaga, porém com o tempo seu paradeiro se tornou um mistério.

Aos setenta anos finalmente fechou os olhos e seu corpo repousa em um mausoléu próximo à estrada que liga Tavan à região do Charco, local de visitações daqueles que viam a Dama da Adaga, não como uma guerreira, ou uma rainha, mas sim como uma divindade.

Tjolmar_Zaiff

Tjolmar Zaiff

No começo da Era da Bonança, após o levante Haza Harin, a magia começava a ser estudada com mais clareza por sábios e versados, pois muitos acreditavam que dominá-la garantiria poder e prosperidade àqueles que a manipulavam, mas acima de tudo proteção contra as terríveis criaturas que pelas sombras pudessem se esgueirar. Contudo, muito deles ganharam notoriedade para ocupar lugares de destaque nos primeiros reinos.

Dentre tais estudiosos, destacavam-se os Draavarth’s, uma classe de manipuladores da magia, que vieram da famigerada “Ilha Que Não Está no Mapa” e aportaram na Longínqua, outro local místico e com forte manifestação de poder. Esses versados pregavam que a eclosão da magia se baseava em três pilares: a fonte, o condutor e a evocação. Contudo, para os raros estudiosos atuais esses conceitos nunca foram bem compreendidos.

Dentre os melhores, destacava-se a imponente Tjolmar Zaiff, a maior dos Draavarth’s, a portadora do Tomo Branco. São poucas as informações sobre essa poderosa feiticeira. Porém, alguns pergaminhos quase esfacelados da Biblioteca de Cristal da Longínqua relatam que, durante sua juventude, ela aportou na cidade de Plavna Laguna, onde até a maioridade fez parte da corte do egocêntrico rei Goromês Envlahad, neto de Raxkar Envlahad, um dos Três Guerreiros e Protetor da Longínqua. Além de sua posição de honra junto ao trono, ela treinou acólitos e discípulos nas artes mágicas na cidade para que dessem continuidade ao seu legado.

Sua história por Plavna Laguna tem como destaque a breve passagem em que participou de um confronto com o misterioso e temido Caminhante Estranho, onde o rei Goromês foi morto e a cidade foi inundada, dando origem ao Lago Olho de Âmbar. Reza a lenda que Tjolmar teve ajuda divina no mortal embate com o tal Caminhante, escapando momentos antes da cidade ser devorada pelas águas.

Após a destruição da cidade, permaneceu sumida por duas décadas, sendo um mistério o seu paradeiro, até que retornou para a Longínqua com alguns discípulos, muito mais experiente e em posse de artefatos místicos de grande poder. Em pouco tempo sua fama foi restaurada e voltou a integrar o conselho da grande cidade de Carta Griss. Em sua nova morada presenteou cidadãos com alguns dos artefatos, dentre eles um nobre que recebeu uma misteriosa estátua.

Porém, com o passar do tempo, um novo grupo de manipuladores da magia surgiu, conhecidos como os Mayesics. Com uma perspectiva de usar a magia de um modo corrompido e brutal, eles começavam uma verdadeira caçada aos Draavarth’s, onde nascia grande rivalidade. Não se sabe ao certo quem foi o primeiro Mayesic, mas ele parecia conhecer muito bem as fraquezas do seu grupo rival, a ponto de roubarem e deturparem os ensinamentos do Tomo Branco.

Com o intuito de proteger sua guilda, Tjolmar, junto com seus discípulos, confronta os seus algozes, em uma questão que perdurou durante um ano, onde o ódio e as agressões se intensificaram, mergulhando as maiores cidades da Longínqua em um caos total. Porém, mais fracos e à medida que os recursos mágicos se tornavam escassos, o primeiro grupo de estudiosos da magia foi sendo destruído, um por um de seus membros, pelas forças Mayesics, que pareciam ter o poder em abundância.

Tjolmar encontrou seu final na região litorânea de Durenvall, terceira maior cidade da Longínqua. Cercada por dez inimigos e restando apenas ela, seu braço direito e seu filho de criação, ela utiliza dois feitiços. O primeiro foi destinado a proteger seu amigo e seu filho lançando-os pelo mar, na esperança que seu legado não fosse perdido. Já o segundo feitiço foi o suficiente para causar grandes danos aos Mayesics, restando apenas três deles, incluindo seu líder. Jamais houve um relato de qual feitiço foi usado, porém gerou grande destruição. No chão nada mais cresceu e por lá perdura até os dias de hoje uma marca em forma de estrela queimada no chão.

Ainda em alguns manuscritos, aldeões e pescadores próximos relataram ver um poderoso clarão dourado, seguido de forte estrondo. Quando chegaram ao local, viram grande colunas de fumaça, a marca fulgurante, que vitrificava o chão e acima dela, bem ao centro, havia uma estátua dourada, com uma mão no peito e outra batendo o cajado contra o centro da marca. À medida em que o vento soprava, a estátua se desfazia em poeira dourada, até que nada mais sobrou.

Terminava assim a ordem dos Draavarth’s; os Mayesics continuaram atuando nas sombras, em um misto de lendas e realidade. Já os dois sobreviventes fugiram para a região do Poente após longo tempo navegando, onde ergueram as primeiras pedras do Mosteiro do Charco.

Pietro_e_Ivethe_de_Sauvignon

Pietro de Sauvignon e Ivethe Malbec

Após a Guerra entre Vinhos e Espinhos, com a derrota dos videirinhos, o clima de instabilidade havia tomado todo o território da Cabeça do Lobo. Como se não bastassem as perdas de guerra, a fome e as doenças, muitos dos sobreviventes tornaram-se viciados no Elixir do Soldado, pilhando e espalhando mais terror, que culminou com a queda da família real Moscatel, deixando o reino em situação desesperadora.

Durante anos diversas famílias disputaram o trono em um período de vasta incerteza, e não havia um líder de fato a ser seguido. Tal ciclo conturbado foi amenizado pela queda gradativa da magia, atribuída à permanência do Gigante Aipim, Terror da Nação Catatau, em sono profundo pela superfície do Firmamundo. Deste modo não havia mais a preocupação com os Bestiais de Araucária Frondosa, ou o Mercador da Morte tão participativo na Guerra.

Porém, a proximidade entre os Catatais e os Videirinhos não se resume apenas ao sono do gigante, uma vez que são consideradas nações irmãs, já que a Cabeça do Lobo se firmou como reino apenas com a chegada de exploradores catatais que criaram raízes junto aos nativos do leste auroriano.

Em meio a tantos conflitos, duas das mais antigas famílias videirinhas merecem destaque, os Malbec e os Sauvignon. Enquanto a primeira prosperava comercializando com a Ilha Solene e com uma embrionária Catatania, a segunda quase foi extinta durante a Guerra, onde restaram apenas dois herdeiros, Anton e Veros de Sauvignon, desertores do campo de batalha, que criaram raízes próximos a Catatania. Após a guerra, Veros tentou o retorno a sua terra natal apenas para ser condenado à forca por deserção, o que fez com que Anton jamais voltasse a terra natal.

O sobrevivente então se casou com uma catatau, Lenor Tiramissu, em uma época dourada, com grande prosperidade sob a luz da afamada Princesa Estrelinha. Somava-se a isso o crescimento da força bélica que reinava pelos céus, os lendários Cavaleiros Libélula. Deste casamento nasceram quatro filhas: Elisa, Lara, Brígida e Alana; porém, com cenhos franzidos para estrangeiros, mesmo vivendo em uma nação irmã, sua família teve muitas dificuldades em ser aceita.

Anton já estava idoso quando sua filha caçula Alana lhe deu seu único neto, filho de um navegante sem nome, a quem recebeu o nome de Pietro. Ainda que marginalizado pelas ruas de Catatania, o menino parecia sentir certa atração pelo libelábulo, como se algo o chamasse. O jovem não estava errado; tal vinculo mostrava-se cada vez mais forte, até que em um festival a Libélula Azul da classe das Furiosas o reconheceu como seu cavaleiro. Tal atitude do animal gerou burburinhos pelas ruas da cidade, mas a decisão devia ser respeitada, afinal, segundo a história, aquela classe de libélula era a única que escolhia seu Cavaleiro.

Mesmo a contragosto a Ordem dos Cavaleiros Libélula aceitou treinar o jovem, que demonstrava perícia inata para montar o animal, tornando-se invencível em duelos aéreos. Porém a chegada daquele cavaleiro em si causava estranheza por toda a nação catatau, uma vez que apenas em tempos difíceis tal personagem surgia e junto de uma Tocada pelo Firmamundo. O que os catatais não sabiam é que Pietro era predestinado a ser herói por outro reino. Desde sua consagração sempre sonhava com uma moça com idade próxima a sua, que cantava sob um brasão de um Lobo estilizado em folhas de Parreira.

Com o passar dos dias, após realizar uma escolta de mercadores vindos da Cabeça do Lobo, o cavaleiro reconheceu o símbolo da família Malbec junto à vanguarda da caravana. De imediato sentiu forte vontade de rumar para o reino do leste.

Em paralelo, as disputas pelo trono de Parreira Branca continuavam intensas, e a família Malbec começava a ganhar destaque comercialmente, além de focar em valores diferentes de grande maioria das famílias videirinhas – Urten Malbec e sua esposa Erglantine acreditavam nas relações comerciais e nas manifestações culturais para prosperarem; tinham em sua filha Ivethe Malbec o maior expoente cultural – de voz angelical, a jovem Ivethe liberava todo seu lirismo e poesia. Versados não compreendiam o poder de sua voz, que a tudo acalmava, e até mesmo muitos bardos medíocres cresciam em talento ao ouvir o canto da jovem.

Apesar de tamanha prosperidade e de sua filha ser seu maior tesouro, Urten jamais ambicionou o trono; contudo, seu crescimento atraía olhares invejosos de outras famílias, algumas com maior influência, tendo como expoente o nobre Heitor Pinotage, que segundo as más línguas havia afundado um dos três navios da família Malbec.

Além do naufrágio, Urten e tantos outros videirinhos tiveram outro golpe mais pesado quando a Época de Tempestades adentrou pela Aurora. A brutalidade do evento foi tamanha, ao ponto de o Mar Confinado avançar sobre a costa na forma de ondas colossais e deslizamentos de terra e rochas, formando um imponente recife, tão grande a ponto de aprisionar naquela saída para o mar uma abominável criatura.

Tal abominação era conhecida como o Xião das Águas Profundas, que havia ficado preso entre dois fiordes conhecidos como as Presas do Lobo. Com a presença da fera, embarcações das mais diversas foram destruídas e não havia outras rotas marítimas para exportar os vinhos e outras mercadorias.

Com a chegada do monstro, a jovem Ivethe começou a sonhar com um cavaleiro que montava uma criatura do mais belo azul e caminhava ao seu lado; e nesses sonhos sentia que aquele homem estaria junto dela na hora mais derradeira, onde via uma sombra emergindo das águas.

O reino, que já estava conturbado, mergulha de vez no caos: Heitor Pinotage traz um sacerdote das Ilhas de Sal, devoto do Xião, que pregava a necessidade de se realizar um sacrifício; entretanto, nenhuma família desejava tão torpe saída. Então o sujo Heitor lança sua cruel cartada, sugerindo que Ivethe seja acorrentada a uma rocha e use de sua voz angelical para acalmar a fera. A sórdida sugestão que a principio era absurda começava a ganhar força entre os mais desesperados.

Quando o pânico e outras mazelas que acompanhavam o reino desde a Guerra de Vinhos e Espinhos se tornam insustentáveis, a crença no sacrifício movimentou uma terrível turba que avançou contra as terras Malbec, com o propósito de capturar a jovem Ivethe. Porém, nem mesmo sua voz, nem mesmo a influência e ouro de seu pai puderam conter a multidão. Algemada por grilhões Ivethe foi carregada em uma sórdida procissão até a cidade litorânea de Buraco da Pipa.

Contudo, descendo dos céus de maneira quase profética, Pietro surgiu na frente da aglomeração. Apesar de não se conhecerem, o Cavaleiro e a garota sentiam uma profunda ligação. Montado em sua libélula e de lança em punho, o rapaz afugentou os mais acalorados, libertando a jovem. Ainda que fosse apenas um, sua presença era imponente e sua Furiosa transmitia medo e fascínio aos presentes.

Sob a proteção de Urten, os dois tentavam compreender o que de fato os ligava, que correntes místicas eram aquelas que entrelaçaram os seus destinos. Tal proximidade os unia tanto no plano terreno, quanto no dos sonhos, onde sempre vislumbravam uma imponente mulher com Olhos de Mil Estrelas lhes chamando. Em meio ao mistério, Heitor Pinotage com um exército novamente invade as terras Malbec, reclamando Ivethe como sacrifício ao Xião, além de alegar que Pietro pertencia à família de desertores Sauvignon e merecia a pena de morte.

Em uma fuga desesperada o casal segue seus instintos e ruma para as terras abandonadas de Pequenolid, em busca da Dama de Olhos de Mil Estrelas. Após alguns dias de busca, estando maltrapilhos e famintos, a Dama surge na frente deles e oferece a Espada Lírica, uma lâmina com inscrições e glifos antigos; e seu cabo tinha o formato de uma mulher cantando. Além da arma, foram dados um dom para cada e três conselhos, “Na hora derradeira solte a mão de sua amada e converse com o inimigo”, “A canção do Firmamundo está em tudo, inclusive em você a na espada” e por fim, “A espada tem grande poder, mas não para ser usada contra o seu inimigo”.

Ainda sem compreender o que lhe foi passado, o casal em dúvida sobre o seu destino cruza o continente auroriano para enfim confrontar o terrível Xião. Porém, em sua chegada, testemunham uma embarcação da família Pinotage cheia de crianças, prontas para serem sacrificadas.

Ao sobrevoarem a área isolada veem o grande peixe serpentiforme se erguer das águas. Crianças gritam e urram de medo, umas de mãos dadas as outras. Na região portuária do Buraco da Pipa, muitas pessoas oram para que o sacrifício seja aceito, já outras se debulham em lágrimas por filhos e filhas estarem a um passo de serem devorados pela besta marinha. Na praia, ao centro de uma roda de videirinhos, junto com o sacerdote das Ilhas de Sal, há um Heitor Pinotage com olhos sádicos aguardando sua vitória.

Durante a tórrida cena Pietro notou sua mão atrelada a de Ivethe, só então o primeiro conselho fez sentido e o rapaz corajosamente saltou de sua libélula mergulhando nas águas frias; assim, sua ação atraiu a atenção do monstro. Nesse momento o dom que ele ganhou da Dama de Mil Olhos começava a agir, e Pietro compreendia o que a besta tanto desejava, conseguindo uma trégua momentânea. Com a brutal Época de Tempestades, Xião foi jogado entre os fiordes e com o deslizamento acabou preso. Com o espaço diminuto e a fome pelo pouco alimento, só lhe restou atacar as embarcações em busca de comida.

Já de volta à praia, e com videirinhos se aproximando de maneira hostil, Pietro levou a Ivethe tais informações, com as quais a jovem assimilou o segundo conselho e também o seu dom: ela ganhou a Canção do Firmamundo e começou a entoá-la. Como que por magia, cada videirinho que testemunhava a cena sentia paz em seu coração, os ânimos eram acalmados e a canção fazia seu efeito; o próprio Xião demonstrava tranquilidade, como se sua liberdade estivesse prestes a chegar, deste modo ele se distanciou da embarcação, trazendo alívio para as crianças.

A cada verso cantado, a cada palavra dita, uma inscrição acendia de um intenso brilho dourado. Pietro sentia o quão grande era o poder que emanava da canção, que se convertia na forma mais bruta de poder. Ao final da melodia, toda a canção talhada na lâmina brilhava, em uma esplêndida chama dourada.

Pietro desejava usar tamanho poder, mas não sabia como, então se recordou do terceiro conselho, que não deveria usá-la contra o Xião, tão logo percebeu que a criatura estava presa por um recife de pedras, causado pelo deslizamento. Com a espada em punho liberando a mais bela das luzes o Cavaleiro da Libélula Azul cravou violentamente a espada contra o chão; a onda de energia dourada se ergueu, abrindo um vão pela água, atingindo em cheio as rochas do recife, liberando a criatura.

Todos comemoravam e agradeciam o surgimento dos dois heróis da Cabeça do Lobo, Pietro de Sauvignon e Ivethe Malbec. Ao casal foi oferecida a coroa, entretanto o casal a rejeitou, para logo em seguida entregarem aos pais de Ivethe – Urten e Erglantine.

Após vinte anos, com o descanso eterno de Urten, quem assumiu o trono foi seu neto, Camilo Malbec, filho de Ivethe e Pietro. Heitor Pinotage foi preso, e como não havia descendentes, sua família foi extinta.

A ascensão da família Malbec trouxe à Cabeça do Lobo um período rico em cultura, e acima de tudo, de paz, graças aos dois maiores heróis de Parreira Branca.

Albino costas largas colorido

Albino Costas Largas - O Unificador

Filho de Dário Costas Largas, Albino foi o responsável pela unificação dos clãs pandareques. Enquanto os catatais foram a nação que criou raízes na costa leste do continente auroriano, unificando-se de fato após o mal conhecido como Aipim, os pandareques tem uma origem repleta de mistérios, dos quais muitos foram elucidados após a unificação.

Navegadores por natureza, e com uma impressionante capacidade de construção, seja ela naval ou civil, os pandareques eram um povo desprezado, o qual ganhou a alcunha de pandarecos, muito pela característica da heterocromia, sinal de mau agouro. Além disso, foram marginalizados por não terem terras, ou mesmo uma história de origem; quando muito dizia-se que seu povo surgiu de dois irmãos, Hardamor e Antúria. Reza a lenda que ambos deixaram manuscritos escondidos pela Aurora.

Buscando um lar, os clãs abandonaram as navegações e viveram durante certo período nas praias do Rio Sargaço Bravo, aos pés da Escada da Solidão, em vassalagem aos catatais da extinta Pequenolid. Porém, apenas com a ascensão do terrível mal conhecido por Aipim, resolvem seguir o mapa e subir o Rio em busca de novas terras e de se firmarem como nação. Liderados por Dário Costas Largas os clãs se unem em um terreno de planície onde sofrem com criaturas que dominavam aquela região, os famigerados Faganhotos.

Com a falta de alimentos e a situação precária devido aos constantes ataques dos animais, os clãs começam a travar disputas entre si, o que certamente os levaria à extinção. Com medo do iminente fim de uma nação que mal havia começado, o filho de Dário, Albino encontra os pergaminhos falando de uma nova localização, onde repousava uma relíquia, com os dizeres “Aquele que tem o sangue dos primeiros, e de fato tiver fé e perseverança, poderá vir até o Ninho do Corvo e despertar o poder da Marreta que unirá todos os pandareques”.

Apostando que aquela poderia ser a salvação do seu povo, ele parte em busca do tal artefato, que repousava em um lugar distante chamado Ninho do Corvo; em sua jornada foi perseguido pelos terríveis Faganhotos, principalmente em uma área pantanosa que viria a ser a cidade conhecida por Faganhoteiros.

Em sua jornada começa a mapear o leste da aurora, onde finalmente encontra em um local ermo uma torre solitária guardada por cinco anciões. Albino narra sua jornada e só então percebe a heterocromia nos olhos daqueles que durante anos o aguardavam. Os antigos prometem ajuda, desde que em contrapartida ele pague um tributo pela espera e prometa que cada futuro rei deveria visitar aquele local para se que se torne digno da nação que comandaria.

Enfim, lhe orientam a escalar a torre e responder os desafios impostos, mas jamais deveria revelá-los ao próximos que viriam. Após árdua subida, Albino encontra a relíquia, a famigerada marreta, que pertenceu a Hardamor Costas Largas, o pioneiro, porém nunca se soube se ele cumpriu todos os desafios.

Com os ritos cumpridos, ele traça seu caminho de volta, onde na área pantanosa confronta um grande faganhoto, o alfa do grupo. Após um duro combate, consegue subjugar o animal e o usa como montaria, sendo seguido por outras criaturas, como o senhor do grupo. Naquele momento percebeu que os animais poderiam ser domesticados e começa a utilizá-los para a coleta de frutas e grãos.

Passados alguns dias, finalmente Albino retorna com uma quantidade razoável de alimentos e animais. Os sobreviventes dos clãs, já bem debilitados ao verem a chegada do homem o reconhecem como salvador e líder e se unem em volta dele, proclamando-o o primeiro rei.

Sobre uma pedra incrustada na planície, entre dois rios menores, Albino firma o marco zero da cidade de Petrec dando origem a nação pandareque, onde a dinastia Costas Largas se mantém até os dias de hoje.