Prólogo- Páginas Perdidas

“A besta despertou e rumou para o rio, assim me disseram os últimos que libertei, aqueles sortudos que escaparam com vida… É chegada a hora”. Com ar pesaroso e preocupado, o rapaz ostentava sua armadura azul metálico com o ombro e braço direito expostos, subiu em sua montaria de cor igual a sua vestimenta. Uma bela libélula, um inseto gigante a quem chamava ternamente Argonauta. Como um raio, em azul metálico alçou voo por dentro da densa cortina de água que caía, nada poderia ser mais difícil.

Em meio a uma torrente de raios que clareava tudo em tons de prata viu a desolação daquilo que um dia havia sido a mais promissora das cidades do Firmamundo. Tinha o coração pesado, não apenas pelo passado que viu destruído, mas principalmente por decisões que teria de tomar. Sob a sela de seu magnífico animal, ele fechava o punho em ódio e medo de perder a pessoa que lhe era mais cara e que agora descia com a frota do rei Eumano, ao encontro da fera. 

Após se despedir dos escombros de sua cidade natal, o antigo castelo de seus pais que há pouco serviu de trono para a besta, o Arqueiro mergulhou com Argonauta para baixo. Lá contemplou de maneira assustadora o colosso com água até os joelhos subindo o rio Sargaço Bravo. 

A correnteza dificultava os avanços do monstro, mas a cada passada, ondas brutais se chocavam contra os trirremes, veleiros e barcos menores, virando-os e os afundando. Alguns catatais recentemente libertos tentavam escalar a abominação apenas para serem devorados ou esmagados. Começava a ser escrito o primeiro capítulo da escravidão e extinção catatau. 

Em meio ao caos, o rapaz desceu junto a uma praia fluvial ao ouvir gritos. Ali havia uma choupana usada como um orfanato, crianças em pânico berravam por suas vidas. 

– Quietos, vocês podem atrair o monstro! – Sussurrou o rapaz com o indicador junto à boca, enquanto golpeava um cadeado de ferro com uma pedra tentando libertá-los. 

  – Nos prenderam aqui senhor. Somos o sacrifício para que o monstro nos devore e vá embora. Ele nem nos viu, só olha para frente. – Respondeu a menina mais velha tentando em vão apaziguar os ânimos dos mais novos. As palavras bateram como uma marreta no estômago do rapaz. “Ele a sente, o desgraçado fareja a presença dela”

A correnteza arrastava pedaços de barcos para a costa onde permaneciam encalhados, os gritos ao longe se misturavam com trovões e pesadas gotas de chuva se chocando contra a água barrenta do rio, formando uma pintura desoladora. Da mão do jovem escorria sangue tamanha raiva com que apertou a pedra, golpeando fortemente o cadeado da choupana, até finalmente soltar as crianças. Então apenas ordenou. 

– Subam a escadaria e escondam-se! – Os olhos azuis do rapaz reluziam a cada relâmpago que caía. 

Os raios pareciam atraídos não pelo gigante, mas sim para um grande galeão próximo. O Arqueiro sabia que ela estava lá. Seu corpo tremia em um misto de medo e frio, fitou os libertos subindo a escadaria e gritou para sua montaria. 

Argonauta Krahash

  O que deu em meu pai de ofertar crianças como sacrifício?! Foi sujo… E agora volto como um pródigo, talvez os catatais devessem ser extintos mesmo”. Preso em seus pensamentos voou rapidamente por cima da besta que enfrentava a heroica frota, que lançava bolas de fogo por meio dos rudimentares trabucos e catapultas, no entanto a fera afundava barcos com extrema facilidade, e devorava catatais com armadura e tudo. 

Camuflado pela pesada massa d’água que despencava, passou por cima do gigante sem ser notado. Finalmente avistou o Protetor do Santuário, o galeão de guerra do rei Eumano Lokumorst, o soberano catatau das planícies. No convés, próximo ao rei, ela brilhava em prata, faiscava por toda a pele como se evocasse raios, seus cabelos vermelho fogo encharcados soltavam fumaça, parecia levemente flutuar, tão pequena, delicada e ao mesmo tempo tão poderosa… “Eumano, seu miserável por que a trouxe aqui para esse caos?” 

No mergulho profundo Argonauta avistou o galeão. A libélula mal havia pousado e o Arqueiro saltou do animal em pleno movimento. Sua primeira providência foi acertar um soco no rosto do rei que foi ao chão. 

  – Eumano, seu palerma, por que a trouxe? – O rapaz espumava de raiva e mordia os lábios a ponto de um filete de sangue escorrer queixo abaixo. Soldados apontavam-lhe lanças e espadas. Para ele nada disso importava, apenas queria sua amada em segurança, algo utópico naquele momento.

– Acalme-se, ela convocou a todos, teimava em dizer que era o fardo dela. Tentei dissuadi-la como me sugeriu, e raios e mais raios caíam pelos campos… soldados, abaixem as armas, estamos do mesmo lado – Ordenou o soberano aos seus homens. 

Um urro gutural fez todos tremerem no imponente galeão que sacolejou bruscamente com o movimento da besta. 

Argonauta pousado fazia uma refeição antes que o próximo passo fosse tomado. O Arqueiro pegou seu misterioso arco e quatro flechas, também azuis, além do saco de pano encharcado que tinha nas costas. Aquele era o momento em que deveria tomar a mais difícil das decisões. Virou-se de imediato em direção a sua amada, ela docemente veio ao seu encontro pousando gentilmente sobre o convés. Simples, porém bela, descalça em seu singelo vestido branco gasto, olhos brilhando em prata pura, hipnotizante e genuíno em beleza.

– Por que você veio? Ele perguntava com os olhos marejados, disfarçados pela água que escorria pelos cabelos e rosto. 

– A Harpa está contigo? Ela lhe entregou? Perguntou a jovem.

Como ela sabia da Harpa? Eu tinha dito que resolveria! No entanto, ela se mostra uma verdadeira princesa, comanda tropas, demonstra saber muito mais do que eu. Não poderia mentir, minha amada sente e sabe a verdade. Contrariado, abriu a mochila e com muito pesar entregou o artefato, a Harpa do Encanto. Fitava-a e o mundo parou por um instante, ela tão frágil e ele se sentia protegido ao lado dela.

Uar! Os catatais são meus!

Um dos curtos momentos de ternura foi bruscamente quebrado quando o monstro destruiu um dos grandes navios de guerra, cheio de óleo. Piche explodiu, queimando quem estava por ali feito uma tocha. A abominação falava causando espanto e pavor. O rapaz apertou seu arco com força se preparando para o embate quando Eumano o chamou:

– Encontrou respostas? A tal divindade de olhos de mil estrelas que lhe visitou nos sonhos? O que ela lhe disse? 

– Apenas me deu essa bela armadura e três conselhos… – Respondeu com desdém. 

– E você? – O rei observava atônito uma galé ser esmurrada até afundar. 

– Se conselhos fossem bons ela teria me vendido e não me dado junto com uma Harpa. – O rapaz parecia incomodado, não pelas perguntas do rei, mas pelos conselhos da tal divindade. 

– Muitos homens zombam dos Filhos do Firmamundo, não achei que fosse um desses. – O Arqueiro fez negação com a cabeça e nada respondeu.

Gritos desesperados eram ouvidos pelo leito do Sargaço Bravo, mais uma embarcação conhecia o triste fim. De fato, o rapaz devia seguir os conselhos da divindade, em vez disso, preferiu guardá-los para si. Não havia tempo, catatais eram abatidos como ratos a vassouradas. “Meu povo será brutalmente extinto e não posso deixar meu bem mais precioso ser vítima desse colosso maldito.”, pensava o candidato a herói fitando os dois olhos amarelo-topázio da criatura. 

– Por favor, proteja-a, eu dançarei com a fera. – O Arqueiro colocava o seu elmo.

– Pode vencê-lo? Outros cavaleiros-libélula caíram hoje. – O rei indagou-o, e o rapaz sentia o pulsar de fúria pelas suas veias, assim como percebia o medo exalando do soberano. O gosto de ferro pousou em sua língua, após outra mordida no lábio. A aberração se aproximava e barcos mais próximos começavam a remar contra a correnteza para fugir. 

– Melhor, o farei pagar – respondeu com sorriso cruel de canto de boca já se virando em direção à sua amada, o motivo pelo qual havia tomado todas as suas decisões.

– Minha adorável, meu tesouro! Não vou permitir que cometa essa loucura, eu tombarei a fera, confie em mim – disse passando suavemente a mão em seu rosto sentindo o calor de sua pele. 

Com um sorriso discreto e preocupado ela estendeu a mão para ele ternamente dizendo: 

– Vamos fazer juntos. Estamos atados, você sabe que sim, e é assim que deve ser.

– Só por hoje minha amada, a divindade tem de estar errada. Não há tempo, outros morrerão, eu vou! 

Pessoas caíam, o gigante as devorava, não haveria tempo para seguir conselhos, o rapaz tinha convicção de que a filha do Firmamundo estava errada.

– Amado, por favor… – O rapaz seguiu para a libélula.

Sua última olhada avistou uma lágrima evaporar em meio ao calor que a princesa do Firmamundo emanava. Subiu em sua montaria que reluzia feito safira aos clarões da tempestade. Já com arco em punho voou de encontro a ferocidade. “História nova, ou antiga, com conselhos ou não, isso acaba aqui”.

  O jovem atraiu a atenção da monstruosidade fazendo círculos ao seu redor. A fera tentava pegar, apertar e esmagar o intrépido rapaz contra as águas barrentas. Com a palma da mão o ser colossal lançou uma massa de água contra a dupla que lhe infernizava. Rápida como uma flecha, a libélula planou em paralelo com a parede de água, tão próxima que o rapaz até mesmo podia molhar ponta dos dedos. 

Ao desviar zigue-zaguearam próximo a bocarra, forçando um violento bater de dentes monstruosos. Novamente escaparam, talvez, pela primeira vez, aquele ser abominável conhecia um rival que poderia lhe fazer frente. Sem pestanejar a fera chocou uma mão contra a outra, a onda de ar e água lançou-os para cima. Sob as ordens de seu mestre, em uma fração de segundos Argonauta recolheu as asas e mergulhou rodopiando para abri-las rente à água. O rapaz sabia que libélulas não poderiam voar em dias com tempestades calamitosas, mas Argonauta era um espécime raro, um Furioso, e poderia fazer coisas que nenhuma libélula faria. 

Ao planar próximo à lâmina de água, a dupla passou por debaixo das pernas do adversário que quase tombou se movimentando bruscamente para apanhá-los no leito do Sargaço Bravo. O movimento gerou uma onda que quase afundou mais barcos trazendo total terror aos que ali viam a dança. 

Enraivecido, mais uma vez o monstrengo urrou e recebeu seu primeiro castigo. Em meio a engasgos, grunhidos e tossidas, a fera tentava compreender o que havia acontecido. 

A primeira flecha foi cravada em sua úvula, o raio metálico azul cortou gotas de chuva pelo caminho até varar e sacolejar aquela bola vermelha no fundo da boca da besta. Ele se engasgava e chiava, o jovem orgulhoso do feito se perguntava se alguma vez a criatura havia sentido tamanha dor. Ao longe, as crianças escalavam a escadaria em segurança, mesmo que momentânea.

Enquanto o colosso urrava, a segunda flecha foi enterrada entre os seus olhos, infelizmente não tão efetiva. Então, buscando mais uma distração, a dupla azul voltou a dançar com a criatura atordoada, que esmurrava a esmo o ar e berrava copiosamente. Entre um giro e outro, o rapaz pode ver a embarcação mais distante, porém sua amada brilhava mais intensamente, aquilo o preocupava. 

O punho do gigante quase golpeou em cheio o cavaleiro e sua montaria. Aproveitando o momento e com as pernas travadas no dorso de Argonauta, o par fez um trajeto em espiral ao longo do braço esticado, passando rapidamente pelo seu rosto. Desviaram para a direita até ficar próximo da orelha, onde o terceiro e mais cruel castigo foi disparado. Rumando dentro do ouvido, o projétil furou o tímpano do monstrengo. O sofrimento quase o tombou, ele parecia zonzo, fazia movimentos pendulares, certamente com seu equilíbrio afetado. 

O jovem encarou o olhar sofrível do monstro, não sentia conforto algum nisso, tampouco piedade pelo oponente. Argonauta flutuava, com seu mestre exibindo ar vitorioso, autoconfiante demais. 

Com a última flecha em mãos, o jovem pensou. “Não são necessários conselhos, bastam quatro flechas especiais”. Sacou a última da aljava colocando-a no arco, a ponta de diamante forrada de baba de rã, um veneno que em pequenas quantidades faz as pessoas desmaiarem, mas o tanto que havia ali e disparado dentro dos seus olhos certamente o faria algo mais. 

A besta gritou ameaçadoramente. 

– Quero que saiba que quem vai por fim em seu reinado é Lu…

Pela arrogância e vacilo da dupla, o ser ancestral golpeou Argonauta violentamente, cavaleiro e montaria giraram pelos céus como um pião até se arrebentarem na praia fluvial. A ponta da flecha resvalou no braço desprotegido do Arqueiro abrindo um pequeno talho; o jovem sentia dores terríveis quando a fera se virou em sua direção. A montaria fechou os olhos. 

Rendido. Seria mais um dos tantos devorados. Tomado pelo medo, veneno e ferimentos, o Arqueiro não conseguia se mexer, havia cavado o próprio fim. Sua amada, o tesouro do Firmamundo então, entrou na batalha evocando um raio que acertou o monstro bem na flecha presa na testa. A garota flutuava como uma esfera de luz prateada tocando a Harpa envolta por majestosos halos de luz trazendo paz à batalha. 

Infelizmente o veneno destinado ao monstro cobrava seu efeito. Nem mesmo os poderosos halos de luz foram capazes de remover o mal causado pela fleacha envenenada. A vertigem tomou conta do corpo, o jovem amoleceu, enjoado, não tinha mais noção do tempo e do espaço. Em meio à dor e ao formigamento viu sua amada ascender aos céus. Já não se importava mais com o gigante, só tinha olhos para sua Estrelinha subindo até que tudo virou breu. 



 

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