Arfava freneticamente. Escondido junto ao tronco da imbuia, o mensageiro se encolhia. Sabia que era caçado, não passava de um coelhinho assustado. Observava a mão sem o mindinho e o anelar, o sangue gotejando e se diluindo pelo foliáceo molhado, mordia o lábio inferior para disfarçar a dor que sentia, mas acima de tudo tentava se manter calado, engolindo todo seu pânico para não ser notado. De bom, apenas os grossos pingos de chuva que despencavam por entre a mata fechada daquela maldita estrada abandonada, e disfarçavam as lágrimas que rolavam de seu rosto.
Apesar da chuva, ainda conseguia ouvir o sibilar intenso de quatro predadores que o cercavam pelo bosque; pareciam caçoar dele e de seu medo. Não tinha ideia se doía mais a perda dos dedos ou o talho na barriga provocado por uma das criaturas.
Enfim, degustava aqueles que seriam seus últimos momentos, o gosto amargo de bílis lhe subindo à boca. Fitava com dúvida a garrafa marrom em mãos, logo se recordou do grito desesperado “Beba o Elixir”, o último conselho de seu mentor Quiquiricas, antes de ser devorado pelas bestas.
— Apenas deveria anunciar a visita do príncipe, o que poderia dar errado? Estou todo ferrado. Devia ter aceitado ser um pária.
Palavras trêmulas envoltas em gotículas de vapor, sem testamento, ou sequer um enterro digno. Seria essa a sensação da morte solitária? Dias antes, tudo o que Godric de Carmenere desejava era resgatar a dignidade de sua família, perdida quando o pai, completamente bêbado, caiu em um poço. Muitos o mediram, surpresos, pois era um rapaz de dezesseis anos em uma jornada em plena Época de Tempestades; outros o ridicularizaram, já que não havia nada mais estúpido do que abandonar a cidade, quando a cortina d’água se fechava por todo o reino.
Foi acompanhado por Quiquiricas, seu mestre, homem de confiança de seu finado pai, e por Bredas, um corpulento aventureiro; esse último levava a tal garrafa marrom contendo o famigerado Vinho do Lobo Bravo, ou Elixir do Soldado. Segundo o homem, desde os tempos de guerra, nenhum videirinho deixava a cidade de Parreira Branca sem ele, apesar da bebida ter sido banida. Aquele não era um vinho comum; tratava-se de uma mistura insana; o jovem pouco sabia da bebida, entretanto os mais velhos diziam que ela tinha diversos efeitos, acima de tudo, sobre o medo; porém, o vício caminhava junto. Com sorte, não teriam de tomá-la.
Godric voltou a ouvir o sibilar apavorante das criaturas, que pareciam até combinar o ataque. “Não quero morrer, não aqui”. Em meio ao pânico, olhou com mais carinho para a garrafa de vidro marrom. O rótulo desbotado exibia o desenho de um lobo toscamente desenhado. Com os molares, mordeu e puxou a rolha com força: o cheiro do fermentado lhe atiçou as narinas, não por ser agradável, muito pelo contrário, um cheiro enjoativo e adocicado.
A dúvida pairava em sua cabeça. Tomar ou não o famoso elixir? Por um lado, seus algozes estavam a ponto de lhe destrinchar a carne, como fizeram com seus dois companheiros e aquela desesperada ação poderia lhe garantir a vida. Por outro, a bebida era conhecida de outrora por desgraçar tantos cavaleiros e lanceiros, os levando para a morte por livre e espontânea vontade. E depois, o que viria? Quantas graves sequelas lhe traria, além de mais desonra a sua família.
Ainda divagando, viu um vulto circulando entre a estrada e o barranco onde a grossa árvore se encontrava. O rapaz se encolheu mais, tremia de pânico e dor, lágrimas brotavam; via ao longe a pinguela por onde seu cavalo disparou e fugiu. Outra sombra surgiu e, por reflexo, levou a boca ao gargalo, dando três belas goladas. A bebida era amarga, bem diferente de seu cheiro, e picante. Desceu queimando. Bateu em seu estômago vazio feito um coice.
Não sabia quanto se passou, mas como em um passe de mágica, não sentia mais a dor, frio ou fome; o tempo parecia fluir mais lento. A textura das folhas ao redor era diferente, e conseguia distinguir cheiro de terra molhada, da relva e, sim, o cheiro podre das feras que o rondavam. Começava a discernir os sons dos pingos pelas copas das árvores, o fluir do riacho por debaixo da pinguela, e até mesmo o pisar dos perseguidores pelo chão lamacento.
Não havia mais temor, apenas fúria pelos companheiros mortos e alegria pelo combate. Recordou-se que Bredas foi o primeiro a cair; talvez, aos olhos das criaturas,fosse mais apetitoso. Ele seria o segundo, quando tentou resgatar a saca com mantimentos e acabou gravemente ferido. Mas Quiquiricas o salvou, ignorando seu instinto de sobrevivência, para que ele pudesse levar a mensagem ao reino vizinho. A simples nota de que seu príncipe, ao final dessa maldita época, cortejaria a princesa.
Morreria por causa de terceiros. Aquele ódio primitivo o fez se erguer e desembainhar sua espada. Torcia com força a empunhadura e, sem vacilar, arremessou um galho em direção à pinguela, atraindo a atenção de um deles mais a frente e outros três mais atrás. Não era mais o rapaz apavorado escondido atrás da árvore, sentia o espírito de um guerreiro nato emergir de seu corpo.
Media as criaturas parecidas com sapos de pele bege amarronzada, grandes olhos amarelados e garras curvas, que batiam na altura de sua cintura. Se ergueu por detrás do tronco com um sorriso malicioso no rosto. A bebida já fazia seu efeito.
– Como pode? Mataram o Quiquiricas e o Bredas. Coisinhas desprezíveis!
Fizeram todo esse estrago. Bichos asquerosos. Vão morrer.
Pulsando em êxtase, com a espada empunhada, o rapaz se deslocou rapidamente, de modo insano, sem hesitar, o corte circular atirou a cabeça do primeiro para longe.
Aproveitou o embalo do primeiro golpe e girou pelos calcanhares esquivando do segundo para varar a boca do terceiro. A criatura que errou o contra-ataque observava com grandes olhos arregalados, contudo não teve tempo de mais nada, Godric o estocava na garganta, o sangue azulado esguichou, lhe tingindo o rosto e a lâmina. O último tentou fugir apenas para ser partido pelas costas.
Godric urrou como se expulsasse todos os seus demônios, provavelmente repelindo os outros que poderiam surgir em seu caminho. Cruzou a pinguela e caminhou debaixo das goteiras pela mata fechada. Por sorte, seu cavalo ainda estava vivo e o alforje com as mensagens reais permaneceu inteiro.
“Que o príncipe tenha sorte com seu relacionamento”, pensou já montado, enquanto olhava apaixonadamente para a bebida. Já não era mais o coelho assustado, era o lobo caçador. Seguiu seu rumo com a certeza de que começava outro relacionamento; restava saber o quanto este seria abusivo.